"Quando obtemos uma vitória, temos de ser muito disciplinados para não perder o equilíbrio, a humildade e o compromisso." (Ross Perot)
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Ótimo é inimigo do bom?
Essa famosa expressão do mundo corporativo pode ser, na verdade, o cúmplice do péssimo.

Durante as últimas décadas - antes, portanto, da atual crise justificar todo tipo de abuso - tem prosperado entre nós um desses movimentos que nascem tímidos, crescem, avançam e, quando nos damos conta, assumem o comando e ditam as regras dos nossos negócios e até das nossas vidas.

Um movimento que nasce de um ditado "popular" de origem aparentemente desconhecida (ao menos pra mim), e que vai conquistando espaço na cabeça das pessoas mais consevadoras ou complacentes, vira mantra no discurso de executivos, marqueteiros e publicitarios práticos ou cinicos e alcança, por fim, toda a estrutura das nossas vidas e organizações, incluindo sua direção.

Com o tempo, o que era tático passou a ser estratégico, uma iniciativa esporádica e pontual tornou-se, então, uma forma esperta (ou, como preferem alguns, "criativa") e permanente de viabilização de ações e objetos previstos nos planejamentos das empresas, passando, por fim, a constituir a própria estratégia e a condicionar, no nascedouro, toda a sua construção: "0 ótimo é inimigo do bom"; "o ótimo...".

Passou-se em seguida, a esgarçar todas as fronteiras, a buscar formas sempre mais "criativas" de viabilizar estratégias e ações, a aceitar, sem constrangimento, benefícios discutíveis por custos indiscutíveis, a trocar, enfim, o tal ótimo, aparentemente inútil e "inacessível", pelo bom, inofensivo, manso e certamente possivel. O resultado, embora cantando em verso e prosa, passou a ser apenas um detalhe. Um detalhe.

A partir disso, estimulado pela competitividade cerscente e pela busca insaciável de produtividade ("produtividade"!?) o mercado em geral, e o nosso de forma mais particular, condicionou-se a aceitar todo tipo de restrição e toda sorte de pressão no sentido de esquecer, abandonar, sepultar o ótimo. "Precisamos ser criativos!!!" - todos ja devem ter ouvido esta frase um dia. Algumas vezes, com certeza, acompanhada do irresistível e prático "afinal, o ótimo é inimigo do bom!"

Bom... Assim fomos avançando, mercado e sociedade, primeiro aceitando o louvado "bom" em lugar do irritante "ótimo". Depois, com um empurrão aqui e uma "flexibilizadinha" ali, passamos a aceitar o "regular" no lugar do "bom", afinal ele também é inimigo do "ótimo" e, ao que parece, tem algum parentesco com o "bom".

Por fim, afrouxados, "criativos e algumas vezes ameaçados, acabamos por engolir o "péssimo", que, cúmplice do "bom" e do "regular", odeia e despreza o "otimo" e topa qualquer parada.

Infelizmente, é bem fácil constatar a prevísivel vitória do tal "bom", com sua frouxidão, sua complacência e sua inesgotável flexibilidade. Basta olharmos à nossa volta, lermos um jornal ou uma revista, assistirmos à televisão, navegarmos pela internet: aceitamos o péssimo político, cínico e inatingível, com suas péssimas práticas; aceitamos o péssimo jornalista e a péssima relação de seus veículos com a verdade; aceitamos também, é claro, os péssimos publicitários e sua péssima, ineficaz e dispendiosa propaganda; aceitamos inclusive, e, em alguns casos até os cultivamos, os péssimos fregueses, com seu desrespeito cotidiano pelo nosso tempo, pelo nosso trabalho e claro, pela integridade dos nossos negócios.

Essa lista, aparentemente, não tem fim e pode incluir ainda os péssimos e encensados jogadores de futebol; os péssimos musicos e seus péssimos discos. Você, certamente, também tem sua lista de péssimos. Faça um pequeno esforço. Que tal as dez campanhas "mais" péssimas da história? Não vale propaganda de cerveja. Ou os dez políticos "mais" péssimos do país? As des músicas, companhias aéreas, agências, restaurantes, filmes, etc.

Mas, lembremos, nós é que construímos tudo isso. Nós é que construbuímos para esta degradação. Todos somos cúmplices. E o que nasceu de um ditado estúpido, repetido estupidamente pelas ruas, estádios, congressos e, claro, empresas, com seus corredores povoados de gente complacente e arrivista, tornou-se uma verdade esmagadora, um sinal dos nossos tempos mesquinhos e desinteressantes, em que desvalorizamos e atacamos uma ótima idéia ou um trabalho ótimo apenas porque eles são os maiores da nossa enorme preguiça ou, pior, do nosso ilimitado medo.

Assim, creio, está mais do que na hora de começarmos a reverter este péssimo quadro. Que tal invertermos o tal ditado? Que tal repetirmos milhões de vezes, até acreditarmos: "o bom é inimigo do ótimo!"? Será um ótimo começo. Aí, quando você vir alguma coisa "apenas" boa, pense em como seria se ela fosse ótima. Exija um pouco mais. Aceite que ela possa, eventualmente, até custar também um pouco mais, mas exija, insista, que seu resultado também seja um "pouco melhor", ou que, no mínimo, ele seja realmente bom.

Por Augusto Diegues (pres.da Futura Prop.) - HSM Online - 17/06/2009